Eucalipto no páreo

setembro 16, 2008

11/9/2008

Por Thiago Romero

Agência FAPESP “O eucalipto pode ser tão bom e eventualmente até melhor do que a cana-de-açúcar para a produção de biocombustíveis a partir da biomassa gerada na plantação dessas culturas.”

A afirmação de Carlos Alberto Labate, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), foi feita aos pesquisadores presentes na primeira edição do Simpósio sobre Etanol de Celulose, cujas atividades foram concluídas na tarde desta quarta-feira (10/9) na sede da FAPESP.

“O eucalipto é uma árvore incrível e, o Brasil, um país de muita sorte por ter todas as condições necessárias para a alta produtividade da cultura. A indústria florestal brasileira, uma das melhores do mundo e que serve de referência para vários países, está interessada em entender como a biomassa do eucalipto pode ser usada para a produção de etanol. Trata-se de uma nova revolução da química verde”, disse no evento realizado no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN).

Sem deixar de reconhecer que a cana-de-açúcar é uma das principais fontes de biomassa para a geração de energia, Labate, que é professor do Departamento de Genética da Esalq, destacou a importância das cascas do eucalipto.

Atualmente, esses resíduos permanecem no solo das plantações após a extração do tronco da árvore, que normalmente é destinada à indústria de papel e celulose. “Uma quantidade razoável de casca é dispensada no solo com o corte da madeira, algo em torno de 20 toneladas por hectare. Ao ser fermentado ao longo dos anos, esse material libera gases do efeito estufa”, disse Labate à Agência FAPESP.

“Sabendo que as indústrias do setor florestal estão preocupadas com as questões dos impactos ambientais, uma forma de despertar ainda mais o interesse é mostrar o valor econômico dos resíduos desperdiçados, que podem tanto ser usados para produzir bioetanol como biopolímeros. A casca do eucalipto é uma ótima fonte de carbono de baixo custo”, explica.

Em sua palestra, intitulada The eucalypt as a source of cellulosic ethanol, Labate mostrou estudos conduzidos por sua equipe no Laboratório Max Feffer de Genética de Plantas, que comprovam que a composição da casca do eucalipto é mais favorável do que o bagaço da cana em termos de açúcares fermentáveis: a quantidade de pentoses (monossacarídeos de cinco carbonos) inibitórias ao processo de fermentação está presente, segundo ele, em menor quantidade na casca do eucalipto.

“Além disso o eucalipto possui o dobro de hexoses, que são açúcares fermentáveis como sacarose, glicose, frutose e galactose, em relação ao bagaço da cana. Isso significa que, teoricamente, o potencial do eucalipto para a fermentação é maior do que o da cana. O problema é que ainda não temos o hidrolisado tanto da casca como do bagaço para fermentar e estudar. O potencial do eucalipto existe, mas ele precisa ser melhor pesquisado”, apontou Labate.

Segundo ele, atualmente existe apenas uma empresa no mundo, localizada no Canadá, que acaba de ser inaugurada para a produção de etanol a partir da celulose de madeira. “Como, de modo geral, o custo de produção de papel aumentou muito, as indústrias no hemisfério Norte estão tentando buscar novas alternativas econômicas para a floresta”, disse.

Ele também comparou a quantidade de biomassa anual gerada pela cana-de-açúcar e pelo eucalipto no Estado de São Paulo. Enquanto a cana produz em torno de 10,6 toneladas de bagaço por hectare em um ano, o eucalipto chega a gerar de 23 a 25 toneladas de biomassa por hectare, no mesmo período, com alto potencial para serem transformadas em energia.

Para Labate, outro fator de interesse pelo eucalipto se relaciona com a área total da floresta plantada no Brasil, que gira em torno de 5,6 milhões de hectares, sendo pelo menos 3,5 milhões de eucalipto, o que insere o país entre os três maiores fornecedores mundiais de papel para impressão.

“A previsão para 2015 é que essa área plantada de eucalipto cresça para 4,3 milhões de hectares. Uma das razões desse crescimento é a forte demanda da China por papel e o Brasil deve aproveitar essa oportunidade de crescimento da plantação para a extração de energia da biomassa”, disse.

Rede de pesquisa do bambu é criada

setembro 16, 2008

11/8/2008

Agência FAPESP – Um mercado ainda pouco explorado no Brasil, mas com grande aplicação econômica em diversos países, ganha um impulso com a criação da Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento do Bambu (Redebambu/BR).

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) apoiará projetos de pesquisa e desenvolvimento que busquem a inovação e a difusão de conhecimento ambiental e de tecnologias de utilização dos bambus nos setores da construção civil, da indústria de móveis e de outros artefatos.

China, Índia, Colômbia e Equador são alguns países que têm desenvolvido tecnologias para o aproveitamento do bambu na construção civil, no artesanato e na alimentação humana e animal. O território brasileiro abriga grande diversidade de gêneros e de espécies de bambus, muitos deles não encontrados em nenhuma outra parte, e tem no Acre uma das maiores florestas contínuas de bambu nativo no mundo.

Apenas na costa da Bahia, na região da Mata Atlântica, foram encontrados 22 gêneros e 62 espécies de bambus. Essa diversidade está ameaçada de extinção pela ocupação desordenada do espaço, a expansão da lavoura cacaueira e a retirada ilegal de madeira.

Segundo o CNPq, as propostas aprovadas para a Redebambu serão financiadas com recursos de até R$ 1,8 milhão. Podem concorrer pesquisadores, professores e especialistas com vínculo empregatício com instituições de ensino superior, centros e institutos de pesquisa e desenvolvimento públicos e privados.

Propostas devem ser enviadas até 22 de setembro, exclusivamente pelo formulário de propostas on-line, disponível em www.cnpq.br/formularios/index.htm.

Mais informações sobre a chamada: www.cnpq.br/editais/ct/2008/025.htm

Biodiesel de algas

setembro 15, 2008

14/8/2008

Agência FAPESP – Os ministérios da Ciência e Tecnologia (MCT) e da Pesca e Aqüicultura (MPA) publicaram o primeiro edital para seleção de projetos de pesquisa que contemplem a aqüicultura e o uso de microalgas como matéria-prima para a produção de biodiesel.

Ao todo, serão repassados R$ 4,5 milhões por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As propostas devem ser apresentadas sob a forma de projeto e encaminhadas ao CNPq exclusivamente pela internet, por intermédio do formulário de propostas on-line.

Segundo o CNPq, serão admitidos projetos que englobem todo o processo de produção e transformação em temas como: desenvolvimento de técnicas de cultivo de microalgas de baixo custo e que visem a produção de óleo como matéria-prima para a produção de biodiesel; estudos de potencial de cepas de microalgas; avaliação da viabilidade econômica do processo global do cultivo à obtenção de biodiesel; processos mais econômicos e eficientes do que os convencionalmente usados para a coleta de microalgas e extração do óleo para a produção de biodiesel.

A data-limite para submissão das propostas é 25 de setembro. Os resultados serão divulgados no Diário Oficial da União e na página do CNPq na internet a partir de 27 de outubro. Os primeiros projetos começarão a ser contratados a partir de 1º de dezembro.

Mais informações: www.cnpq.br/editais/ct/2008/026.htm

Água tratada naturalmente

setembro 15, 2008

14/8/2008

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – O engenheiro civil Luciano Zanella desenvolveu um sistema de tratamento de esgoto doméstico que associa a beleza das plantas com o bom desempenho na purificação de efluentes de produtos naturais.

O sistema utiliza espécies ornamentais fixadas em pedra ou bambu colocados sobre uma camada de terra. No recipiente, a água passa pelos espaços entre as pedras (ou anéis de bambu), que, com a ajuda das raízes das plantas, fazem a filtração.

O estudo foi feito como trabalho de doutorado, defendido na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo Zanella, pesquisador do Laboratório de Instalações Prediais e Saneamento, vinculado ao Centro Tecnológico do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o dispositivo é indicado para o tratamento complementar ao esgoto doméstico, após esse ter passado por uma primeira etapa de purificação para remoção dos resíduos mais pesados.

Em testes realizados na Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, o engenheiro utilizou seis tanques de 2 mil litros cada. Os tanques receberam amostras de esgoto que já tinham passado por um primeiro tratamento na faculdade, sendo que em três recipientes foram adicionadas pedras brita nº 1 até a borda e, nos outros três, anéis de bambu.

“A eficiência média de remoção de sólidos em suspensão foi de cerca de 60% para os tanques com brita e de 33% para os tanques com bambu. Os valores médios de matéria orgânica foram de 22 miligramas por litro (mg/l), com 60% de eficiência de remoção, para os tanques de pedra brita, e de 36 mg/l, com 33% de eficiência de remoção, para os construídos com leito de bambu”, disse Zanella à Agência FAPESP. O esgoto que saía da estação apresentava valor médio de matéria orgânica de 54 mg/l.

Os resultados médios obtidos para outro parâmetro de qualidade da água, demanda química de oxigênio (DQO), que mede indiretamente a carga de matéria orgânica contida na amostra, foram de 63,9% para os dispositivos com brita e plantas mistas e 55,8% sem o uso de plantas. No caso dos anéis de bambu, os índices foram de 29,7% e 20,4%, respectivamente.

Segundo o pesquisador, o sistema mantém o padrão estético dos jardins, diminuindo os níveis de rejeição da população para os dispositivos de tratamento de efluentes. Podem ser utilizadas diversas espécies de plantas, entre as quais copo-de-leite (Zantedeschia aethiopica), papiro (Cyperus papyrus) e biri (Canna edulis), que colaboram com o tratamento do esgoto ao mesmo tempo em que absorvem nutrientes como fósforo e nitrogênio para crescer com qualidade.

“A planta cresce em cima do esgoto, que serve como uma espécie de adubo natural para as espécies. O sistema lembra o processo de hidroponia acrescido da ação de microrganismos. Outra vantagem é que ele não necessita de nenhum tipo de produto químico ou eletricidade”, disse Zanella.

Por ser considerado de baixo custo, o sistema é considerado ideal para pequenas propriedades. A água gerada pode ser utilizada para a irrigação de plantações e as plantas podem servir como uma fonte de renda extra pela exploração comercial das flores e fibras vegetais.

“Em uma população rural, por exemplo, seria possível plantar espécies ornamentais para venda. As fibras do caule do papiro, uma das plantas que melhor se adaptaram ao sistema, também podem ser usadas para artesanato na confecção de produtos como papel ou luminárias”, disse.

A educação ambiental de Andy

setembro 15, 2008
Por Fernando Fernandez
10 de Setembro de 2008
A conservação da natureza é uma luta muito difícil e crucial, pois dela depende o nosso futuro e o dos nossos companheiros de planeta. Para que a luta pela conservação dê resultados concretos, o papel da opinião pública é fundamental. É indispensável que muita gente esteja do nosso lado, que muita gente sinta a importância de conservar as animais e as plantas, e não só por razões utilitárias, mas por eles mesmos. Sempre me perguntei sobre o que leva alguém a se tornar conservacionista. Sempre me questionei se a educação ambiental, como geralmente é feita hoje, de fato desperta nas pessoas a intensidade de envolvimento com conservação que precisamos. E toda vez que me questiono sobre essas coisas, penso em Andy.

Fiz meu PhD na Inglaterra, e minha tese foi sobre a ecologia de populações de duas espécies de pequenos roedores em uma floresta de coníferas chamada Hamsterley. As duas espécies estudadas foram o “woodmouse”, Apodemus sylvaticus, e o “bank vole”, Clethrionomys glareolus (hoje Myodes glareolus – os taxonomistas vivem mudando esses nomes). Me desculpe se não dou um nome vulgar em português desses bichos, mas é que teria que inventar um: não existem nomes vulgares em nosso idioma para bichos de outros países que não sejam “notáveis” como os elefantes, os leões ou os ursos. Mas acredite-me, o woodmouse é um ratinho pequeno, do mesmo tamanho que um camundongo doméstico (20 a 30 gramas), e bastante parecido com ele, exceto a cor, que é marrom e não cinza. Já os voles são pequenos roedores que lembram superficialmente porquinhos da Índia (embora não sejam parentes próximos deles), com um focinho muito curto, olhos muito pequenos, e cauda curta. No caso específico do bank vole, ele também tem o mesmo tamanho que um camundongo, mas com uma cor marrom-avermelhada forte, bem característica. Uma visita ao Google Images vai lhe mostrar que esses bichos aparentemente insignificantes são mamíferos bonitos, interessantes. Para mim, claro, roedor bonito é pleonasmo. É verdade que minha visão dos roedores está longe de ser regra, mas experimente olhar para um bank vole, por exemplo, e me diga se não é um bicho que desperta empatia, como tantos outros mamíferos.

Meu estudo era por captura-marcação-recaptura. Eu deixava armadas durante a noite armadilhas de captura viva Longworth, umas caixinhas de metal, iscadas com grãos de aveia, com portas que se fechavam quando o bicho entrava. A cada manhã eu conferia as armadilhas, marcava cada animal com um brinco que tinha um código de letras (ou só via qual era o código se era uma recaptura), e fazia algumas medições e verificações (se animal estava reprodutivo ou não, por exemplo). Depois cada animal era solto no mesmo lugar onde ele havia sido capturado. Ser capturado e manuseado aparentemente não devia ser muito traumático para os animais, porque a maioria deles eram recapturados várias vezes, alguns deles dezenas de vezes. Eu já era capaz de reconhecer vários dos indivíduos antes mesmo de ver seu código. Meu recordista era um woodmouse que foi capturado nada menos que quarenta vezes, e que gostava de sair de sua área original e invadir outros habitats. Eu ficava imaginando se isso tinha a ver com o código dele, que era US.

O encontro

Dentro da floresta de Hamsterley funcionava um centro de treinamento de desempregados, que visava recolocá-los no mercado de trabalho, chamado “Community Task Force”. Era um lugar soturno, triste, onde estavam alguns dos muitos dos derrotados de uma sociedade inglesa cada vez mais impiedosa depois da influência, na época ainda relativamente recente, da Dama de Ferro Margaret Thatcher. Eram prédios mal cuidados, freqüentados por pessoas rudes, desmotivadas, olhando o futuro com pouca esperança.

Um dia, ao parar por alguma razão na Community Task Force, um garoto magro, de cabelo preto curto, vestido com um suéter bastante surrado, veio falar comigo. Chamava-se Andy. Disse-me que tinha quinze anos, era filho de um motorista de caminhão, e que seu pai estava desempregado e estava fazendo um curso ali. Andy tinha ouvido falar vagamente do que eu fazia, e me perguntou, com os olhos esperançosos, se podia ir comigo um dia ver meu trabalho. “Claro, nenhum problema”, eu respondi, “você quer ir amanhã?” Andy topou. No dia seguinte, cheguei a Hamsterley de manha cedo, sob um frio atroz, passei na Community Task Force, e lá estava Andy.

Fomos para minha área de estudo, e começamos a conferir as armadilhas. Logo, a primeira porta fechada, sinal de que devia haver um roedor lá dentro. Segui a rotina à qual eu já estava tão habituado: abrir a armadilha com a porta virada para baixo, deixar cair o roedor mais o material de ninho (que eu colocava para que eles não morressem de frio durante a noite) num saco plástico transparente, tirar o material de ninho, segurar o ratinho pelo cangote, logo atrás das orelhas. Medir, anotar, soltar o roedor, que escapava correndo ligeiro pelo chão da floresta. Andy só olhava o que eu fazia, atento, seguindo cada bicho com os olhos, mas sem ousar tocar ou participar. Eu sentia que faltava alguma coisa. Perguntei, “Andy, você quer pegar um?” Andy disse que não, mas seus olhos disseram que sim. Insisti.

A mágica do contato

Andy pegou o ratinho pelo cangote, mas um tanto desajeitado, talvez com medo de machucá-lo. O roedor se desvencilhou, pulou agilmente para o chão, deu alguns dribles homéricos em dois primatas atrapalhados e desapareceu para dentro de uma canaleta.

Andy ficou mortificado. Começou a se desmanchar em desculpas, ele era tão desastrado, eu tinha perdido os dados, ele tinha estragado tudo. Subitamente tinha ficado triste. Não!

“Pegue outro”, eu disse. “Não”, ele disse, “vou estragar tudo de novo”. Não se preocupe”, eu respondi, “eu pego muitos, um dado só não vai fazer falta, e além disso amanhã ou depois eu com certeza vou pegar os mesmos bichos de novo.”

Andy relutou um pouco, mas acabou concordando em tentar de novo. Desta vez segurou o camundongo com firmeza. Logo nós dois tínhamos formado uma equipe, tirando os woodmice e os voles das armadilhas, marcando os bichos, pesando, sexando, medindo. Comecei a deixar mais para Andy o trabalho de manusear os bichos, enquanto eu anotava os dados. Logo Andy foi se sentindo cada vez mais à vontade, segurando os bank voles pelo cangote e colocando os brincos na orelha deles com imenso cuidado. “I’d love to have your job” (“eu iria amar ter o seu trabalho”), ele me disse então, com um brilho nos olhos. Era visível o prazer com que Andy olhava aqueles animaizinhos, sentindo seu calor, a batida acelerada de seus pequenos corações, os olhinhos olhando suplicantes para nós enquanto os segurávamos pelo cangote. “Não se preocupe, eu não quero te fazer nenhum mal”, eu muitas vezes tinha vontade de dizer para o camundongo, se ele ao menos pudesse entender. Olhando para Andy segurando mais um bank vole pelo cangote, me pareceu que ele tinha a vontade de dizer a mesma coisa para o bicho. De repente, Andy estendeu a mão livre e fez um tímido carinho na testa do bank vole. Então recolheu rápido o braço e olhou para mim, talvez esperando um olhar de desaprovação. Não o encontrou.

Alguns roedores depois terminamos o trabalho. Deixei então Andy na Community Task Force, antes de pegar o caminho de casa. Ele me agradeceu efusivamente, e não foi uma mera resposta convencional dizer a ele que para mim tinha sido um prazer. Então, com seu entusiasmo lutando valentemente contra a sua reserva britânica, ele me disse, “It was the best day of my life” (“Foi o melhor dia da minha vida”).

Pili, um modelo

Nunca mais vi Andy. Não sei o que aconteceu com ele. Mas tenho certeza de que onde quer que esteja, ele, assim como eu, nunca esqueceu aquele dia. E também tenho certeza de que o que quer que ele esteja fazendo como profissional, depois daquele dia a relação dele com a natureza nunca mais foi a mesma.

Lembrar da história de Andy me faz pensar sobre a educação ambiental. Muito da educação ambiental ainda se faz conscientizando as crianças, bastante racionalmente, das conseqüências negativas, para a natureza, de algumas coisas que fazemos ou deixamos de fazer. É claro que muito desse trabalho de conscientização pode ser brilhante e produtivo, mas muito dele acaba sendo como um tipo de inculcação de deveres, que corre o risco de parecer uma versão moderna da “educação moral e cívica”, de triste memória. Mesmo quando é “em campo”, isto é, no meio da natureza, muito da educação ambiental se concentra em falar sobre processos ecológicos que podem parecer abstratos demais para as crianças, ou em mostrar os problemas. Geralmente há poucas oportunidades de ter contato direto, nas próprias mãos, com algum animal que permita às crianças desenvolver o imenso potencial para empatia com os bichos que há dentro delas.

É neste ponto que volta à minha mente a última frase que ouvi de Andy. Aquele dia para ele não foi só um grande aprendizado. Foi um aprendizado extremamente prazeroso. Olhando para aquele pequeno bank vole que pulsava em suas mãos, Andy tinha nos olhos suplicantes do bicho a porta de entrada para um novo Mundo que ele mal sonhava que existia, um mundo fascinante e maravilhoso, tão perto e tão distante de seu tedioso cotidiano. Então, se alguém me pedir uma opinião sobre como fazer educação ambiental, aqui vai: segure um sapo.

É, um sapo, uma rã, tanto faz. A receita não é minha, na verdade vem sendo colocada em prática há anos por Germano e Elza Woehl. Germano é um físico que faz ciência avançada numa excelente instituição de pesquisa, e um apaixonado por anfíbios, como herpetólogo amador, por muitos anos. Ele não foi o único culpado: segundo o próprio Germano, tudo começou quando sua esposa Elza mudou toda a rotina doméstica para não ter que de desalojar da pia da cozinha uma perereca de três centímetros que se instalara ali. O casal se adaptou para deixar Pili – o nome do afortunado anuro – à vontade no seu novo lar. Isso, porém, foi a centelha que, além da rotina dos Woehl, viria a mudar vidas. Germano organizou uma exposição itinerante para mostrar fotos de sapos, rãs e pererecas – Pili foi a primeira modelo – em praças de cidadezinhas do interior de Santa Catarina, e para levar alunos das escolas locais para a mata para pegar os bichos na mão. Mais do que apenas ensinar fatos sobre os anfíbios, Germano os ensinava a perder os preconceitos sobre esses animais, a apreciar como eles podem ser bonitos – bom, não tanto quanto um roedor, é claro – e ter modos de vida interessantes num mundo que as crianças mal sonhavam que existia. Hoje Germano e Elza tem uma ONG em Santa Catarina, o Instituto Rã-Bugio, onde fazem conservação e expandiram seu maravilhoso trabalho de educação ambiental de modo a alcançar mais e mais mentes e corações. Essa admirável trajetória é talentosamente contada por Marcos Sá Corrêa no livro “Sinais de Vida” (Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, 2005). Fazendo as crianças terem anfíbios nas mãos, Germano e Elza ajudam, e muito, a fazer o Mundo melhor. É que naquele dia distante em Hamsterley, segurando aquele bank vole, Andy me ensinou que uma criança que descubra o prazer de segurar um bicho assim na mão e apreciá-lo nunca mais vai ver os tais “animais selvagens” da mesma forma.

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setembro 15, 2008

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