Archive for the ‘Educação ambiental’ Category

Por que conservar a natureza afinal?

outubro 15, 2008

Fernando Fernandez

Até hoje, a meu ver, o cinema só produziu uma obra prima sobre conservação da natureza. Acho que o único filme que já vi que merece este título é um dos mais despretensiosos, mas ao mesmo tempo um dos mais puros e mais sinceros: Dersu Uzala.

Dersu Uzala é um dos filmes menos conhecidos do grande cineasta japonês Akira Kurosawa, falecido há alguns anos. Fez até bastante sucesso quando foi lançado, em 1975, mas depois disso pouca gente ouviu falar dele. O filme conta a história da amizade entre duas pessoas imensamente diferentes: um cartógrafo russo, urbanóide, Arseniev, e um caçador siberiano, que é o tal Dersu. Arseniev lidera uma expedição cartográfica à Sibéria, no início do século XX, e contrata Dersu como seu guia pelas vastidões geladas. Dersu Uzala é um filme lento, com pouca ação, que pode parecer impalatável para alguns cinéfilos acostumados ao ritmo vertiginoso das produções hollywoodianas. Mas vale a pena garimpar as sutilezas com carinho, porque sua paciência será regiamente recompensada: essa majestosa obra prima tem várias cenas antológicas. Um dos maiores pequenos tesouros é a cena da fogueira.

Arseniev, Dersu e os soldados da expedição do primeiro estão em volta do fogo, à noite, comendo um animal recém abatido. De repente, um soldado pega um grande naco de carne e o joga no fogo. Para surpresa geral, o idoso Dersu pula, coloca a mão nas chamas e tira a carne do fogo. O soldado fica perplexo, e segue-se um diálogo mais ou menos assim: “Por que você fez isso? Você podia se queimar!” Dersu responde: “Por que você quer jogar essa carne no fogo? Outra gente vai chegar depois de nós e vai querer comer.” O soldado retruca: “Você está maluco? Nós estamos no meio da Sibéria! Não tem gente nenhuma aqui!” Isto era em 1907, não se esqueça. Mas Dersu então diz, irritado: “A floresta tem muitas gentes”. Para Arseniev, assistindo à discussão à distância, subitamente a ficha cai: sua sutil expressão desconcertada é inesquecível. Ele nem precisaria esperar Dersu completar: “Pode vir um rato, um texugo ou uma gralha, porque você vai jogar a carne no fogo?” O soldado olha ainda sem entender.

A cena da fogueira de Dersu Uzala é inesquecível, entre outras coisas, pelo claro foco de Dersu em conservação, muito além do ambientalismo: pode ser que nenhuma gente de nossa espécie venha, mas nem por isso as outras espécies não merecem sua consideração.

Por que conservar os animais e as plantas afinal? Podem ser apresentadas uma série de razões para isso. Uma das mais ouvidas é que as espécies são fontes de produtos úteis para a humanidade. Em alguma espécie de planta pode estar a cura do câncer, outra poderá fornecer o princípio ativo de algum cosmético fabuloso, ou genes que podem, quem sabe, ser transplantados para outra espécie com efeitos favoráveis. Esse argumento parece à primeira vista fazer bastante sentido. Porém, como bem apontado na revista científica Oikos pelo grande ecólogo inglês John Lawton em 1991, se queremos conservar a biodiversidade, ou pelo menos uma parte expressiva dela, esse é um argumento enganoso, e pode chegar a ser perigoso. Nem todas as espécies são úteis. Para começo de conversa, a maioria das espécies animais são besouros. Há imensa redundância em qualquer grande grupo animal ou vegetal, na bioquímica como em qualquer outra coisa. Muitas espécies são distinguíveis de suas parentes mais próximas apenas por ínfimas sutilezas em suas colorações, suas genitálias ou mesmo seu comportamento, sutilezas essas que só um especialista com anos de treino é capaz de perceber. Isso acontece porque na evolução o processo de especiação (formação de espécies) se dá por isolamento reprodutivo – uma espécie não mais cruzar fertilmente com a outra – e não por quantidade de diferenças entre as espécies. Sendo assim, muitas espécies têm genótipos muito similares ao de espécies próximas, e se desaparecessem, não estariam nos privando de substâncias particularmente diferentes ou valiosas. Provavelmente, embora muitas espécies sejam ou possam ser diretamente úteis ao homem, a maioria não o é.

O mesmo, claro, pode ser dito das utilidades mais óbvias das espécies, para agricultura, pecuária e extrativismo. As espécies adequadas para exploração por essas maneiras são uma ínfima proporção das espécies existentes. O maior problema com esse padrão é que os inimigos da conservação podem facilmente apontar isso e contra-argumentar que, pelo argumento básico da utilidade, a grande maioria das espécies não precisam ser protegidas. Não podemos, portanto, depender desse tipo de argumento.

É verdade que o argumento da utilidade das espécies tem uma versão aperfeiçoada que diz que algumas espécies são úteis afinal, não sabemos quais são ou não, e nessa situação é melhor conservarmos todas elas, ou pelo menos quantas pudermos. Colocado dessa forma, é um argumento bem mais respeitável, mais difícil de rebater, e portanto mais efetivo. Mesmo assim, não me parece que seja suficiente. Afinal de contas, redundâncias continuam existindo na natureza, e as ciências biológicas tem deixado cada vez mais claro onde elas estão. Sendo assim, depender do argumento de que temos que conservar todas as espécies por que não sabemos quais são úteis no fundo é apostar contra o progresso da ciência e do conhecimento. Longe de mim fazer esta aposta. Há, porém, algo que me desagrada mais fundo nas abordagens utilitaristas, mesmo nessa forma mais aperfeiçoada. Esse algo foi expresso com brilhantismo pelo próprio Lawton: “o argumento de que precisamos conservar espécies porque elas podem ser úteis é um argumento ao qual falta alma. É sensato, é verdadeiro, mas não tem espírito, não tem dimensão humana. É o argumento dos tecnocratas…” Cortei pelo meio a citação, desculpe, mas vou me redimir mais abaixo.

Pode ser até então que argumentos estreitamente utilitários sejam úteis, em determinados fóruns, para convencer os tecnocratas. Mas não me considero um tecnocrata, e se você também não for, precisamos continuar nossa procura, indo bem mais fundo – ou quem sabe, mais atrás no tempo.

Me lembro bem de quando aprendi história. Era uma de minhas matérias favoritas na escola e não tenho vergonha de confessar que esperava ansiosamente pelas aulas – que eram muito boas. Mas não me lembro de ter ouvido falar naquelas aulas, nem uma só fez, do efeito da degradação ambiental sobre a trajetória das civilizações humanas. A história, como era pesquisada e ensinada, era completamente cega a isso. Essa situação tem mudado completamente nas últimas décadas, e talvez o maior marco desta mudança até agora seja o maravilhoso e perturbador “Colapso”, de Jared Diamond, lançado em 2005. Se Diamond estiver certo – e seus argumentos são muito convincentes – várias das grandes civilizações do passado entraram em decadência e eventualmente colapsaram por causa de sua incapacidade de manejar adequadamente seus recursos naturais, ou mais precisamente de manter os processos ecológicos que geravam tais recursos. Ou seja, a manutenção da qualidade da água, fertilidade do solo, proteção contra erosão e regulação climática, entre outros, são serviços cruciais que os sistemas ecológicos nos prestam. Todas as nossas civilizações dependem disso, e cuidar bem ou mal dos processos ecológicos tem sido um dos grandes determinantes de que civilizações deram certo ou não. Só isso, e tudo isso. Conservar a natureza por essa razão não deixa de ser até certo ponto uma visão utilitária, mas a meu ver essa necessidade de conservar os processos ecológicos é um argumento infinitamente mais poderoso para a conservação da biodiversidade do que a mera utilidade de cada espécie como fonte de produtos.

Nos últimos anos, com os efeitos cada vez mais óbvios das mudanças climáticas globais, destruindo os delicados mecanismos regulatórios dos processos ecológicos vitais para a biosfera, a sombra do passado se torna cada vez mais inquietante, agora na escala do planeta inteiro. Nosso futuro depende cada vez mais da manutenção dos processos ecológicos. No entanto, sejamos sinceros: esse argumento não explica por que muitos de nós fazemos conservação.

Se você perguntar a um(a) conservacionista porque ele (ou ela)  defende os animais, é provável que a resposta seja algo como, “porque eu gosto de bichos” (ou de plantas, conforme o caso). Eu me lembro de um debate onde vi José Truda, do Projeto Baleia Franca, depois de tentar longamente argumentar porque era importante preservar as baleias, explodir dizendo “Quer saber duma coisa? Eu não tenho que justificar por que eu quero conservar baleias, eu quero conservar baleias por que eu gosto de baleias!” Esse é o argumento sincero, verdadeiro, que vem da alma. Pode, é claro, ser um argumento bastante fraco se o virmos como uma idiossincrasia, como um capricho meramente individual. Mas não creio que seja o caso. Quero, ao invés disso, argumentar que nós gostamos de animais porque somos um, e que aí pode estar a resposta que procuramos.

Uma idéia profundamente revolucionária, proposta por Edward Wilson em 1994, é a da biofilia. A idéia central da biofilia é que gostar da natureza é um dos instintos fundamentais do ser humano. Em uma imensa variedade de outros animais, é comum o processo que os ecólogos chamam de “seleção de habitat”. Os animais são encontrados nos habitats favoráveis a eles porque tem instintos, evoluídos por seleção natural, para reconhecer tais habitats, nos quais evoluíram. O homem é uma espécie biológica, cujo comportamento é influenciado pela cultura adquirida nos últimos poucos milhares de anos, mas também, estejamos habituados a pensar nisso ou não, por instintos evoluídos ao longo de milhões de anos. Por isso, o homem tende a se sentir bem quando está em habitats similares àqueles em que evoluiu – o que explica porque, independente da cultura, gostamos de ir para áreas naturais para nossa recreação. Um dos exemplos mais maravilhosos de Wilson é quando ele se pergunta que tipo de habitat os paisagistas quase invariavelmente planejam, quando se dá a eles absoluta liberdade de criação. O resultado –freqüentemente visto em parques urbanos, campi universitários e condomínios – é uma paisagem com vastos espaços abertos, com o solo coberto de gramíneas, intercalados com pequenos bosques aqui e ali. Isso, Wilson alega, é uma reconstrução de uma savana – o habitat onde nossa espécie evoluiu. Similarmente, nós tendemos a gostar de animais, e de modo geral mais intensamente de animais mais parecidos conosco. Isso aconteceria por que instintivamente reconhecemos – com toda razão, de um ponto-de-vista evolutivo – que são próximos de nós.

Se Wilson está certo, ninguém precisa aprender a gostar de bichos: todos nós já nascemos gostando deles. Gostar dos bichos pelos bichos é muito mais que uma “estratégia” para a conservação da natureza: é uma parte de nós mesmos, que pode ser perdida ou não. Podemos, ao longo da educação, perder contato com a natureza – isso é cada vez mais fácil hoje em dia – e desaprender a gostar de bichos. Mas se conseguirmos evitar isso, aceitar nossa própria natureza animal, inclusive a biofilia que é parte importante dela, é um maravilhoso caminho tanto para o crescimento pessoal como para a mudança global.

Não, Truda, você não tem que se justificar por gostar de baleias. Isso é parte da sua natureza, da minha, e da de todos nós. As pessoas têm vidas mais felizes quando respeitam suas próprias naturezas. Não deveríamos precisar de mais nenhum argumento. Completando a citação do Lawton, “… nós não conservamos concertos de Mozart, pinturas de Monet e catedrais medievais por que eles são úteis. Nós os conservamos porque eles são bonitos e enriquecem nossas vidas.” Assim é também para os animais e as plantas, com a vantagem de que quanto à natureza temos também outros argumentos, para os difíceis de sensibilizar. É que, com todo respeito (e admiração) que tenho por Mozart e Monet, nosso futuro depende muito mais dos processos ecológicos da biosfera do que deles.

Não tenho nenhuma ilusão de que estejamos próximos de onde deveríamos estar. No nosso complexo mundo cultural, muitas outras fortíssimas influências, a começar por doutrinas religiosas que nos dizem que a natureza foi feita para nós, competem com a biofilia e nos levam a perder contato com nossas próprias naturezas. Hoje, a maioria das pessoas ainda está mais perto daquele soldado olhando pasmo para o Dersu do que do próprio Dersu.

No Mundo de hoje, enfrentar e resolver os problemas sociais, que causam tanto sofrimento humano à nossa volta, é sem dúvida fundamental. Acho que todo mundo concordaria com a proposição de isso só vai dar certo se o fizermos a partir de uma genuína preocupação com as pessoas, com os direitos de todos nós a vidas dignas e gratificantes. Dito isso, como argumentei acima, e como Diamond e as mudanças climáticas tem mostrado, conservar a natureza é essencial para o bem estar e para a própria prosperidade das sociedades humanas. No entanto, o leitor pode já ter reparado que eu raramente uso a expressão “meio ambiente”. Não gosto muito dessa expressão. A razão porque eu não gosto é que quando se fala em “meio ambiente”, está implícito que nos referimos ao ambiente (“meio ambiente” é pleonasmo) para a nossa própria espécie. Ou seja, o discurso de “meio ambiente” nos deixa presos ao argumento utilitário. Não gosto de depender disso. Para mim é claro que a mesma proposição que fiz acima para os problemas sociais também se aplica à conservação: num Mundo de tantos interesses econômicos e sociais conflitantes, só acredito que seremos bem sucedidos em conservar os animais e as plantas se o fizermos por eles mesmos, pelo direito que eles têm à vida. Não tenhamos uma visão estreita. Conservar a natureza é bom para a gente. Mas como Dersu já sabia, a floresta tem muitas gentes.

A educação ambiental de Andy

setembro 15, 2008
Por Fernando Fernandez
10 de Setembro de 2008
A conservação da natureza é uma luta muito difícil e crucial, pois dela depende o nosso futuro e o dos nossos companheiros de planeta. Para que a luta pela conservação dê resultados concretos, o papel da opinião pública é fundamental. É indispensável que muita gente esteja do nosso lado, que muita gente sinta a importância de conservar as animais e as plantas, e não só por razões utilitárias, mas por eles mesmos. Sempre me perguntei sobre o que leva alguém a se tornar conservacionista. Sempre me questionei se a educação ambiental, como geralmente é feita hoje, de fato desperta nas pessoas a intensidade de envolvimento com conservação que precisamos. E toda vez que me questiono sobre essas coisas, penso em Andy.

Fiz meu PhD na Inglaterra, e minha tese foi sobre a ecologia de populações de duas espécies de pequenos roedores em uma floresta de coníferas chamada Hamsterley. As duas espécies estudadas foram o “woodmouse”, Apodemus sylvaticus, e o “bank vole”, Clethrionomys glareolus (hoje Myodes glareolus – os taxonomistas vivem mudando esses nomes). Me desculpe se não dou um nome vulgar em português desses bichos, mas é que teria que inventar um: não existem nomes vulgares em nosso idioma para bichos de outros países que não sejam “notáveis” como os elefantes, os leões ou os ursos. Mas acredite-me, o woodmouse é um ratinho pequeno, do mesmo tamanho que um camundongo doméstico (20 a 30 gramas), e bastante parecido com ele, exceto a cor, que é marrom e não cinza. Já os voles são pequenos roedores que lembram superficialmente porquinhos da Índia (embora não sejam parentes próximos deles), com um focinho muito curto, olhos muito pequenos, e cauda curta. No caso específico do bank vole, ele também tem o mesmo tamanho que um camundongo, mas com uma cor marrom-avermelhada forte, bem característica. Uma visita ao Google Images vai lhe mostrar que esses bichos aparentemente insignificantes são mamíferos bonitos, interessantes. Para mim, claro, roedor bonito é pleonasmo. É verdade que minha visão dos roedores está longe de ser regra, mas experimente olhar para um bank vole, por exemplo, e me diga se não é um bicho que desperta empatia, como tantos outros mamíferos.

Meu estudo era por captura-marcação-recaptura. Eu deixava armadas durante a noite armadilhas de captura viva Longworth, umas caixinhas de metal, iscadas com grãos de aveia, com portas que se fechavam quando o bicho entrava. A cada manhã eu conferia as armadilhas, marcava cada animal com um brinco que tinha um código de letras (ou só via qual era o código se era uma recaptura), e fazia algumas medições e verificações (se animal estava reprodutivo ou não, por exemplo). Depois cada animal era solto no mesmo lugar onde ele havia sido capturado. Ser capturado e manuseado aparentemente não devia ser muito traumático para os animais, porque a maioria deles eram recapturados várias vezes, alguns deles dezenas de vezes. Eu já era capaz de reconhecer vários dos indivíduos antes mesmo de ver seu código. Meu recordista era um woodmouse que foi capturado nada menos que quarenta vezes, e que gostava de sair de sua área original e invadir outros habitats. Eu ficava imaginando se isso tinha a ver com o código dele, que era US.

O encontro

Dentro da floresta de Hamsterley funcionava um centro de treinamento de desempregados, que visava recolocá-los no mercado de trabalho, chamado “Community Task Force”. Era um lugar soturno, triste, onde estavam alguns dos muitos dos derrotados de uma sociedade inglesa cada vez mais impiedosa depois da influência, na época ainda relativamente recente, da Dama de Ferro Margaret Thatcher. Eram prédios mal cuidados, freqüentados por pessoas rudes, desmotivadas, olhando o futuro com pouca esperança.

Um dia, ao parar por alguma razão na Community Task Force, um garoto magro, de cabelo preto curto, vestido com um suéter bastante surrado, veio falar comigo. Chamava-se Andy. Disse-me que tinha quinze anos, era filho de um motorista de caminhão, e que seu pai estava desempregado e estava fazendo um curso ali. Andy tinha ouvido falar vagamente do que eu fazia, e me perguntou, com os olhos esperançosos, se podia ir comigo um dia ver meu trabalho. “Claro, nenhum problema”, eu respondi, “você quer ir amanhã?” Andy topou. No dia seguinte, cheguei a Hamsterley de manha cedo, sob um frio atroz, passei na Community Task Force, e lá estava Andy.

Fomos para minha área de estudo, e começamos a conferir as armadilhas. Logo, a primeira porta fechada, sinal de que devia haver um roedor lá dentro. Segui a rotina à qual eu já estava tão habituado: abrir a armadilha com a porta virada para baixo, deixar cair o roedor mais o material de ninho (que eu colocava para que eles não morressem de frio durante a noite) num saco plástico transparente, tirar o material de ninho, segurar o ratinho pelo cangote, logo atrás das orelhas. Medir, anotar, soltar o roedor, que escapava correndo ligeiro pelo chão da floresta. Andy só olhava o que eu fazia, atento, seguindo cada bicho com os olhos, mas sem ousar tocar ou participar. Eu sentia que faltava alguma coisa. Perguntei, “Andy, você quer pegar um?” Andy disse que não, mas seus olhos disseram que sim. Insisti.

A mágica do contato

Andy pegou o ratinho pelo cangote, mas um tanto desajeitado, talvez com medo de machucá-lo. O roedor se desvencilhou, pulou agilmente para o chão, deu alguns dribles homéricos em dois primatas atrapalhados e desapareceu para dentro de uma canaleta.

Andy ficou mortificado. Começou a se desmanchar em desculpas, ele era tão desastrado, eu tinha perdido os dados, ele tinha estragado tudo. Subitamente tinha ficado triste. Não!

“Pegue outro”, eu disse. “Não”, ele disse, “vou estragar tudo de novo”. Não se preocupe”, eu respondi, “eu pego muitos, um dado só não vai fazer falta, e além disso amanhã ou depois eu com certeza vou pegar os mesmos bichos de novo.”

Andy relutou um pouco, mas acabou concordando em tentar de novo. Desta vez segurou o camundongo com firmeza. Logo nós dois tínhamos formado uma equipe, tirando os woodmice e os voles das armadilhas, marcando os bichos, pesando, sexando, medindo. Comecei a deixar mais para Andy o trabalho de manusear os bichos, enquanto eu anotava os dados. Logo Andy foi se sentindo cada vez mais à vontade, segurando os bank voles pelo cangote e colocando os brincos na orelha deles com imenso cuidado. “I’d love to have your job” (“eu iria amar ter o seu trabalho”), ele me disse então, com um brilho nos olhos. Era visível o prazer com que Andy olhava aqueles animaizinhos, sentindo seu calor, a batida acelerada de seus pequenos corações, os olhinhos olhando suplicantes para nós enquanto os segurávamos pelo cangote. “Não se preocupe, eu não quero te fazer nenhum mal”, eu muitas vezes tinha vontade de dizer para o camundongo, se ele ao menos pudesse entender. Olhando para Andy segurando mais um bank vole pelo cangote, me pareceu que ele tinha a vontade de dizer a mesma coisa para o bicho. De repente, Andy estendeu a mão livre e fez um tímido carinho na testa do bank vole. Então recolheu rápido o braço e olhou para mim, talvez esperando um olhar de desaprovação. Não o encontrou.

Alguns roedores depois terminamos o trabalho. Deixei então Andy na Community Task Force, antes de pegar o caminho de casa. Ele me agradeceu efusivamente, e não foi uma mera resposta convencional dizer a ele que para mim tinha sido um prazer. Então, com seu entusiasmo lutando valentemente contra a sua reserva britânica, ele me disse, “It was the best day of my life” (“Foi o melhor dia da minha vida”).

Pili, um modelo

Nunca mais vi Andy. Não sei o que aconteceu com ele. Mas tenho certeza de que onde quer que esteja, ele, assim como eu, nunca esqueceu aquele dia. E também tenho certeza de que o que quer que ele esteja fazendo como profissional, depois daquele dia a relação dele com a natureza nunca mais foi a mesma.

Lembrar da história de Andy me faz pensar sobre a educação ambiental. Muito da educação ambiental ainda se faz conscientizando as crianças, bastante racionalmente, das conseqüências negativas, para a natureza, de algumas coisas que fazemos ou deixamos de fazer. É claro que muito desse trabalho de conscientização pode ser brilhante e produtivo, mas muito dele acaba sendo como um tipo de inculcação de deveres, que corre o risco de parecer uma versão moderna da “educação moral e cívica”, de triste memória. Mesmo quando é “em campo”, isto é, no meio da natureza, muito da educação ambiental se concentra em falar sobre processos ecológicos que podem parecer abstratos demais para as crianças, ou em mostrar os problemas. Geralmente há poucas oportunidades de ter contato direto, nas próprias mãos, com algum animal que permita às crianças desenvolver o imenso potencial para empatia com os bichos que há dentro delas.

É neste ponto que volta à minha mente a última frase que ouvi de Andy. Aquele dia para ele não foi só um grande aprendizado. Foi um aprendizado extremamente prazeroso. Olhando para aquele pequeno bank vole que pulsava em suas mãos, Andy tinha nos olhos suplicantes do bicho a porta de entrada para um novo Mundo que ele mal sonhava que existia, um mundo fascinante e maravilhoso, tão perto e tão distante de seu tedioso cotidiano. Então, se alguém me pedir uma opinião sobre como fazer educação ambiental, aqui vai: segure um sapo.

É, um sapo, uma rã, tanto faz. A receita não é minha, na verdade vem sendo colocada em prática há anos por Germano e Elza Woehl. Germano é um físico que faz ciência avançada numa excelente instituição de pesquisa, e um apaixonado por anfíbios, como herpetólogo amador, por muitos anos. Ele não foi o único culpado: segundo o próprio Germano, tudo começou quando sua esposa Elza mudou toda a rotina doméstica para não ter que de desalojar da pia da cozinha uma perereca de três centímetros que se instalara ali. O casal se adaptou para deixar Pili – o nome do afortunado anuro – à vontade no seu novo lar. Isso, porém, foi a centelha que, além da rotina dos Woehl, viria a mudar vidas. Germano organizou uma exposição itinerante para mostrar fotos de sapos, rãs e pererecas – Pili foi a primeira modelo – em praças de cidadezinhas do interior de Santa Catarina, e para levar alunos das escolas locais para a mata para pegar os bichos na mão. Mais do que apenas ensinar fatos sobre os anfíbios, Germano os ensinava a perder os preconceitos sobre esses animais, a apreciar como eles podem ser bonitos – bom, não tanto quanto um roedor, é claro – e ter modos de vida interessantes num mundo que as crianças mal sonhavam que existia. Hoje Germano e Elza tem uma ONG em Santa Catarina, o Instituto Rã-Bugio, onde fazem conservação e expandiram seu maravilhoso trabalho de educação ambiental de modo a alcançar mais e mais mentes e corações. Essa admirável trajetória é talentosamente contada por Marcos Sá Corrêa no livro “Sinais de Vida” (Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, 2005). Fazendo as crianças terem anfíbios nas mãos, Germano e Elza ajudam, e muito, a fazer o Mundo melhor. É que naquele dia distante em Hamsterley, segurando aquele bank vole, Andy me ensinou que uma criança que descubra o prazer de segurar um bicho assim na mão e apreciá-lo nunca mais vai ver os tais “animais selvagens” da mesma forma.